Imagine que um romance escrito em inglês mencione futebol. O tradutor encontra a palavra correspondente em português, escreve “futebol” e segue adiante. A operação parece simples porque uma palavra saiu de um idioma e encontrou sua equivalente no outro, mas o leitor brasileiro não recebe exatamente aquilo que recebeu o leitor inglês, americano ou argentino. Mudam as referências associadas ao esporte e a maneira como ele participa da vida cotidiana.
Petê Rissatti usa esse exemplo na Formação de Tradutor de Livros da LabPub para mostrar por que a tradução literária dificilmente pode ser reduzida à procura de equivalências. Mesmo quando dois idiomas oferecem termos correspondentes, cada palavra chega ao leitor dentro de uma experiência cultural própria e o trabalho do tradutor passa também por compreender o papel que ela desempenha naquele texto.
Cada livro cria seu próprio problema
A comparação que Petê estabelece entre tradução técnica e tradução literária ajuda a perceber essa diferença. Ele chama a tradução técnica de um “voo guiado”, porque um contrato, um manual ou um material corporativo costuma chegar acompanhado por instrumentos que delimitam parte das escolhas do tradutor, como glossários, memórias de tradução e orientações de terminologia. Ainda há decisões a tomar, mas o percurso conta com balizas relativamente estáveis.
Na tradução literária, essas balizas mudam de livro para livro. Petê chama esse trabalho de “voo livre” porque o tradutor precisa compreender como aquele texto foi construído antes de decidir como levá-lo para outra língua.
Um romance de Virginia Woolf pode exigir atenção particular ao ritmo da prosa, enquanto em Kafka certos trechos se aproximam de uma linguagem burocrática ou cartorial. Na fantasia e na ficção científica, o próprio livro pode fabricar palavras para aquilo que existe apenas dentro de seu universo, o que obriga o tradutor a compreender a lógica dessas criações antes de formular uma solução em português.
Petê conta que livros diferentes de um mesmo autor podem exigir abordagens bastante distintas. Ao traduzir obras de John Scalzi, encontrou projetos com vocabulários e universos próprios, de modo que o repertório construído para um livro nem sempre servia ao seguinte.
Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, torna esse problema especialmente visível porque parte da identidade do romance depende de um vocabulário criado para aquele universo. Em casos assim, traduzir envolve descobrir como aquela invenção funciona dentro da obra para então reconstruí-la em outra língua. É nesse sentido que Petê recorre à ideia de recriação ao falar do trabalho literário.
Encontrar a voz de outra pessoa
Mesmo quando o livro não inventa palavras, o autor desenvolve hábitos de linguagem que passam a participar da forma como reconhecemos sua escrita. O tradutor precisa perceber essas recorrências enquanto lida com a própria presença dentro do texto, já que toda solução depende de escolhas.
Diante de duas palavras possíveis ou de diferentes maneiras de reorganizar uma frase, a decisão passa pelo repertório de quem traduz e pela maneira como essa pessoa aprendeu a ouvir a língua. Petê resume essa interferência em uma formulação que aparece durante a aula: “traduzimos quem somos”.
Reconhecer essa presença também exige perceber quando ela começa a empurrar o texto para uma direção que pertence mais ao tradutor do que ao autor. Isso pode acontecer com facilidade quando o tradutor também escreve literatura, porque quem escreve desenvolve preferências próprias e passa a considerar certas construções mais naturais ou mais bem resolvidas do que outras.
Petê lembra ainda que o inglês aceita determinadas repetições com mais naturalidade e costuma trabalhar com frases mais curtas do que o português. Por isso, antes de alterar uma construção recorrente, o tradutor precisa entender se ela pertence ao funcionamento da língua ou ao modo particular como aquele autor escreve.
O livro encontra outro leitor
A mudança de idioma também desloca quem está do outro lado da página. Petê propõe que o tradutor considere tanto o leitor para quem o livro foi escrito originalmente quanto aquele que o receberá na língua de chegada, porque certas referências deixam de ser evidentes quando o texto entra em outro contexto cultural.
Ele relata ter trabalhado com uma obra ambientada na Índia em que diversos termos apareciam sem explicação porque a autora escrevia para leitores familiarizados com eles. Ao chegar ao português, parte desse repertório deixou de poder ser presumida, o trabalho exigiu pesquisa e a edição acabou incorporando um glossário.
A idade do leitor também pode interferir nas escolhas. Num livro infantil, uma palavra excessivamente complexa pode dificultar a leitura, enquanto uma simplificação excessiva pode alterar a relação que o texto estabelecia com seu público.
Gírias acrescentam outro problema porque carregam marcas de época e de pertencimento social. Uma expressão pode produzir determinado efeito em seu momento de publicação e chegar anos depois cercada por associações diferentes, exigindo atenção à distância entre o tempo do original e o momento em que a tradução será lida.
Traduzir um livro envolve, portanto, acompanhar tudo aquilo que muda quando o texto passa a circular em outra língua, desde as escolhas particulares de um autor até as referências que o novo leitor traz para a página.
Se esse tipo de decisão faz parte do trabalho que você quer compreender melhor, a Formação de Tradutor de Livros da LabPub acompanha esse percurso a partir dos problemas concretos da tradução literária. Com Petê Rissatti, o curso aborda a leitura do original, a identificação da voz do autor e as escolhas que surgem quando um texto precisa funcionar em outra língua e para outro público.