Por que tantos livros infantis parecem querer ensinar alguma coisa?

Três meninas folheavam livros quando uma delas reconheceu um título que havia lido na escola. Disse que não tinha gostado. Quando perguntaram o motivo, respondeu que parecia que o livro estava querendo ensinar alguma coisa.

Marcelo Maluf, escritor e professor de criação literária, conta essa conversa em uma aula sobre literatura infantojuvenil. A menina havia percebido uma característica que acompanha parte da história da literatura infantil: algumas histórias já começam sabendo aonde querem levar a criança.

A literatura infantil cresceu próxima da educação moral e da transmissão de comportamentos, e parte dessa herança ainda aparece na maneira como adultos se aproximam desses livros. Ao redor dela existe também uma estrutura de circulação formada por escolas e famílias, além das políticas públicas de leitura. No Brasil, poucas estruturas tornam essa relação tão visível quanto o Programa Nacional do Livro e do Material Didático, o PNLD, responsável pela distribuição de livros para escolas públicas de todo o país.

A pergunta da menina, então, alcança algo maior. O que acontece com uma história quando tantos adultos esperam que ela também ensine?

Quando a mensagem chega antes da história

A comparação com a literatura para adultos ajuda a enxergar o problema. Ao falar de Kafka e Clarice Lispector, Marcelo observa que pessoas diferentes podem encontrar sentidos diferentes no mesmo livro, sem que uma única mensagem precise organizar toda a experiência. Quando o leitor é uma criança, cresce a cobrança por uma conclusão mais definida e por um aprendizado que possa ser reconhecido ao final.

A mensagem pode então começar a anteceder a própria história e orientar os acontecimentos para um destino já previsto. A narrativa passa a seguir um caminho determinado pela conclusão que se pretende alcançar.

Crianças já vivem cercadas por adultos que orientam seu comportamento e estabelecem limites. Marcelo lembra da presença da família e da escola nessa formação e conta que, em algumas visitas escolares, esperavam que o escritor ocupasse uma posição próxima à do professor, reforçando valores por meio de sua fala e de seus livros.

O exemplo dos animais apresentado por Marcelo mostra outra forma de trabalhar esse tipo de questão. Uma história pode criar uma relação entre a criança e aqueles animais enquanto os acontecimentos avançam, e o cuidado pode surgir da proximidade produzida pela leitura. Quando ele fala sobre natureza, o raciocínio segue pelo mesmo caminho: a preservação pode ganhar sentido a partir da relação construída com aquele universo ao longo da narrativa.

Quando o livro também precisa passar pela escola

O PNLD ocupa uma posição difícil de ignorar no mercado editorial brasileiro. Apenas no atendimento do PNLD Literário de 2023, o FNDE registrou cerca de 28,5 milhões de exemplares destinados aos anos finais do ensino fundamental e ao ensino médio, com aquisições de aproximadamente R$ 332,6 milhões.

Para participar desse circuito, uma obra atravessa critérios definidos em edital. No PNLD 2023 para os anos iniciais, por exemplo, a avaliação considerava a qualidade do texto e sua adequação temática, além do enquadramento da obra em categoria, tema e gênero literário.

A seleção continua dentro das escolas. No PNLD Literário, professores e dirigentes participam da escolha considerando a pertinência das obras para a proposta pedagógica da instituição.

Um programa dessa escala entra no horizonte de muitas editoras que publicam para crianças e jovens. Participar de uma compra capaz de colocar um título em milhares de escolas pode influenciar decisões de catálogo e a maneira como projetos são apresentados ao mercado. Os próprios critérios oficiais também valorizam aspectos propriamente literários, entre eles o desenvolvimento do gosto pela leitura e o estímulo à imaginação.

A relação de Marcelo Maluf com esse circuito também aparece em sua trajetória como autor. As mil e uma histórias de Manuela, uma de suas obras para crianças, integrou o PNLD 2023.

Nos próprios critérios do programa, qualidade literária convive com objetivos educacionais e parâmetros definidos pela política pública. Para quem escreve ou publica livros infantis, essa tensão passa a fazer parte do terreno em que as obras circulam.

A criança ainda precisa encontrar alguma coisa sozinha

Pensar na criança como leitora significa admitir que o significado de uma história também se forma durante a leitura. Ela chega ao livro com experiências anteriores, e aquilo que encontra nas páginas começa a se relacionar com esse repertório.

Duas crianças podem guardar partes diferentes do mesmo livro. Uma passagem breve pode acompanhar uma delas durante anos, enquanto outra encontra seu interesse em outro momento da história. A diferença nasce do contato entre texto e leitor e continua depois que o livro termina.

A discussão sobre didatismo também passa por esse espaço. Uma obra pode abordar questões importantes da infância e da vida em sociedade enquanto deixa margem para que o leitor construa relações próprias com aquilo que encontra.

Um livro pode tratar de assuntos importantes e confiar que parte do sentido se formará quando a história encontrar a criança que vai lê-la.

Se você escreve para crianças e jovens e quer aprofundar essa discussão na prática, o curso Literatura Infantojuvenil: Oficina Literária com Marcelo Maluf, da LabPub, parte justamente das escolhas envolvidas na construção de uma narrativa para esse público, trabalhando repertório e técnicas de escrita ao longo de 16 horas de formação.

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